Confira os momentos do
Regional Nordeste

Encontro Regional Nordeste de Psicanálise

 

O Tema escolhido para o Encontro Regional Nordeste de Psicanálise de 2020 foi o da "Pulsão de Morte, Psicanálise e Criatividade". Nossa região é composta por duas sociedades psicanalíticas, a SPRPE, com sede no Recife, e a SPFOR, localizada em Fortaleza. O Encontro fluiu livremente, permeado por interações de ambas as representantes, da vice-representante e da conselheira da região, com a colaboração das colegas de cada regional que produziram trabalhos dentro da temática proposta. O clima, entre todas e todos, refletiu a energia da Criatividade destacada no tema, sem fugir dos conceitos fundamentais da psicanálise. Tudo em consonância.

No delicado momento histórico que atravessamos, repleto de lutos simbólicos e perdas humanas, o aspecto da pulsão de morte pareceu ganhar relevância ainda maior diante dos presentes. No entanto, a sensação de acolhimento e as trocas afetivas permitiram que o caminho fosse percorrido de modo sereno. Acompanhado da sensibilidade expressa na fala de cada participante. 

A primeira parte do Encontro, dedicada às candidatas e aos candidatos do nordeste, começou de modo suave e reflexivo ao mesmo tempo. A abertura aconteceu com a leitura da carta escrita e lida por Ana Valeska, representante da SPFOR. O título: “A carta que eu escreveria para você”, sendo o significado deste “você” todas e todos que vivenciam diferentes e semelhantes histórias nesta pandemia. Na correspondência, Ana teceu uma série de reflexões sobre o isolamento, a solidão, o trabalho do analista de suportar e construir representações para as próprias vivências e sua escuta do outro neste período de isolamento social. Trouxe também a importância de olhar com delicadeza experiências singelas, como um beija-flor que atravessou a sala da casa de uma colega durante a aula da formação. A força de Eros presente.

Na sequência, a candidata da SPFOR, May Guimarães Ferreira, em seu trabalho “Psicanálise na sociedade em rede: subsídios para compreensão da subjetividade não privatizada”, desenvolveu sobre vulnerabilidade da sociedade liquefeita. Lembrou que a psicanálise, através da sua técnica, busca dar conta dos aspectos emocionais mais profundos. Destacou a importância de humanizar os contatos, presenciais ou virtuais, e de transformar as trocas em momentos de afetividade. Ressaltou ainda que nos “resta o recurso da pensabilidade e da amabilidade”.

Dando continuidade, a candidata da SPRPE, Cristina de Macedo, apresentou o trabalho “Resistir à ruína: fundar a imaginação”. Inspirada pela peça de Luigi Pirandello: “O homem com a flor na boca” (nela, um personagem que luta contra o câncer faz uso intenso da arte de imaginar como forma de resistência ao sofrimento) Cristina relacionou as pulsões de vida e de morte tanto na obra quanto na travessia da pandemia. “Estamos todos com a flor na boca, a saber, com a marca da nossa mortalidade". A transitoriedade tratada pelo autor também dialogou com o viés psicanalítico.

No livro de Meltzer: “A apreensão do belo”, a experiência estética é associada à percepção de um objeto que consegue conservar, em si mesmo, um mistério. Fomos sensibilizados por muitos mistérios ao longo de nosso Regional Nordeste de Psicanálise. A atmosfera dos afetos expressos e secretos pareceu envolver todas e todos ali. Na segunda parte do Encontro, aberta a candidatos do Brasil inteiro, o intercâmbio, geograficamente, mais amplo seguiu conduzido pelo fio das humanidades. Ispiradas na origem da própria psicanálise, aguçadas pelas cartas trocadas entre Freud e seus amigos, discípulos e pacientes, quatro candidatas da SPRPE e SPFOR inauguraram o momento nacional “par avion”. Retiradas dos clássicos envelopes de correspondência, em alusão ao vírus que se espalhou pelo mundo via aérea, cinco cartas (ou trecho delas), escritas por autores distintos, costuraram enredos de vida e morte, prisões e libertações endógenas e exógenas, lutos e lutas. Parafraseando a colega Ana Valeska, que coloca a carta como “o restauro da artesania”, antagonista das comunicações imediatistas e liquefeitas que marcam a era digital, a correspondência “a moda antiga” requer o esmero do que é feito para ser perene, lido e relido ao longo do tempo. Numa espécie de performance viva, sem a mediação de vídeos, uma vez que já estávamos mediados pelas telas dos computadores ou dos celulares, evitando mais uma mídia dentro da mídias, vivenciamos o orgânico e simples ato de ler.

Iniciamos com Ana Valeska, candidata e representante da SPRFOR. Ela nos trouxe a carta de Antônio Dias para o seu amigo, Leonilson. A correspondência não chegou a ser lida pelo destinatário, que faleceu antes de recebê-la. O conteúdo da correspondência fala sobre saudade e a genuína amizade entre os dois. Traz a imagem de uma ponte, que, ao mesmo tempo que representa o elo de ligação entre duas pessoas, também é metáfora de trajetórias de vida.

É interessante caminhar em cima da ponte, fazer a ponte. Neste momento, eu não sei onde estou na ponte. Acho que é ainda naquele pedaço horizontal, que liga dois polos. Uma ponte é uma projeção. Aonde acaba a ponte? Acaba onde toca um outro ponto. Creio que isso é a maravilha da compreensão. 

 

Em seguida, Camila Vidal, candidata da SPRPE e representante do COWAP pela SPRPE, leu uma passagem do livro escrito por André Gortz, “Cartas a D”. No trecho escolhido, o marido escreve à esposa sobre a vida, a as diferentes perspectivas entre eles, com um tom amoroso, ele fala sobre a maneira que a esposa encarava a vida de um modo intuitivo, diferente do seu, racional e pragmático.

Eu necessitava de teoria para estruturar o meu pensamento, e argumentava com você que um pensamento não estruturado sempre ameaça naufragar no empirismo e na insignificância. Você respondia que a teoria sempre ameaça se tornar um constrangimento que nos impede de perceber a complexidade movediça da realidade. Tivemos essas discussões dezenas de vezes e sabíamos de antemão o que o outro iria responder. No final das contas, elas eram uma espécie de jogo, mas nesse jogo você sempre ganhava. Você não precisava das ciências cognitivas para saber que, sem intuições ou afetos, não há nem inteligência, nem sentido. Imperturbáveis, as suas opiniões reivindicavam o fundamento da certeza vivida, comunicável, mas não demonstrável. (P. 31)

 

Maria de Jesus Maçãs, candidata e conselheira de ABC no Nordeste, fez a leitura a carta que Freud escreveu ao genro, após a morte de sua filha, Sofia, acometida pela pandemia da gripe espanhola. Freud fala de sua perda e sentimento de impotência diante do destino. Ver o pai da psicanálise vivenciando tal vulnerabilidade nos lembra da nossa própria humanidade.

A morte é um ato de destino brutal e absurdo (...) pelo qual não é possível culpar ninguém (…), mas apenas abaixar a cabeça e receber o golpe como os pobres e indefesos seres que somos, submetidos ao jugo de uma força maior.

 

A correspondência escolhida por Lina Rosa, candidata e vice representante da SPRPE, foi retirada do livro de José Eduardo Agualusa, “Teoria Geral do Esquecimento”. Nele, durante a revolução angolana de 1975, a personagem portuguesa Ludovica constrói uma parede de tijolos para fechar o único acesso ao apartamento onde mora (na cobertura de um edifício de onze andares). Quando, finalmente, liberta-se de dentro de si, para conseguir quebrar a parede, haviam passado décadas. Bem mais velha, Ludo remete ”A última Carta” a si mesma quando jovem. Do lugar que cada um de nós ocupa no distanciamento pandêmico, fomos tocados pelas palavras da personagem. Também sentimos vontade de escrever cartas a nós mesmos a partir deste isolamento comum. Associamos, em algum aspecto, esta comunicação consigo mesmo ao próprio processo de análise.

Escrevo tateando letras. Experiência curiosa, pois não posso ler o que escrevi. Portanto, não escrevo para mim. Para quem escrevo?

Escrevo para quem fui. Talvez aquela que deixei um dia persista ainda, em pé e parada e fúnebre, num desvão do tempo - numa curva, numa encruzilhada - e de alguma forma misteriosa consiga ler as linhas que aqui vou traçando, sem as ver. 

Ludo, querida: sou feliz agora.

Cega, vejo melhor do que tu. Choro pela tua cegueira, pela tua infinita estupidez. Teria sido tão fácil abrires a porta, tão fácil saíres para a rua e abraçares a vida. Vejo- te a espreitar pelas janelas, aterrorizada, como uma criança que se debruça sobre a cama, na expetativa de monstros.

Monstros, mostra-me os monstros: essas pessoas nas ruas.

A minha gente.

Lamento tanto o tanto que perdeste.

Lamento tanto.

Mas não é idêntica a ti a infeliz humanidade

 

Após a leitura das cartas, os presentes falaram sobre a riqueza dos sentimentos experimentados. Afirmaram o desejo de escrever cartas para si mesmos falando sobre o que vivenciam neste momento histórico. Nosso sentimento, como organizadores deste encontro, foi de uma forte gratidão, pela disponibilidade dos colegas em produzirem e exporem os seus trabalhos, pelo legado de Freud e dos artistas nos quais encontramos inspiração para falar do mundo e da psicanálise. Agradecemos ainda à ABC por promover este momento de troca entre candidatos de nossa região de todo Brasil.

 

Comissão Organizadora do Encontro Regional Nordeste

LOCALIZAÇÃO

Av. Nossa Senhora de Copacabana, Nº 540, sala 704 
CEP 22020-0010 - Rio de Janeiro - RJ

 +55 21 96836.2882

secretaria@abcpsicanalise.com.br

CONECTE-SE
  • Grey Facebook Icon
  • Grey Instagram Icon
  • Grey YouTube Icon
  • Cinzento Ícone Google+

© 2017 por Associação Brasileira de Candidatos. Criado por Digital Content