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Você banca sua formação?
Rio de Janeiro - RJ
APERJ, SPRJ, SBPRJ e SBPMG
REGIONAL SUDESTE II

Estimulados pela participação nas ricas discussões do Regional de candidatos da ABC do Centro Oeste, e talvez também pela proposta centrada no seu tema “Confidências”, revelou-se a ideia para o tema do Regional Sudeste Rio/Minas: “Você banca a sua formação?”. Em 29 e 30 de março de 2019, aproveitaríamos ainda o calor do final de verão e início do outono no Rio de Janeiro para esquentar os debates com a ideia nada precisa contida em “bancar”. Sustentar, financiar, ludibriar, apostar em jogos de azar... O que surgiria daí? O primeiro passo foi bancar a estranheza expressada por vários colegas após a sua divulgação.

Dificuldades nesse percurso? Claro: troca de dois representantes no meio do caminho, reuniões às segundas 21 horas, desencontros, divergências e muita tensão esperada, considerando que temos aqui no Rio de Janeiro uma trajetória de dissidências que acabou por gerar três sociedades ligadas a IPA num raio de menos de três quilômetros. Foi diante desse quadro que contamos com a horizontal presença da direção da ABC para trocar conosco (a grande vantagem das representações de poder contar com a proposta de vida societária proposta pelo modelo IPA) na organização do nosso Regional.

Como resultado tivemos um evento que, informalmente, começou com um passeio pelas estátuas de figuras célebres que nasceram aqui ou escolheram a cidade como morada. Daí surge a imagem de fundo das nossas divulgações: a estátua de Carlos Drummond de Andrade sentada num banco em frente à cosmopolita praia de Copacabana. Para o Regional Sudeste II, a companhia deste mineiro da interiorana Itabira, Minas Gerais, que veio para a cidade grande escrever num grande veículo de imprensa: O Jornal do Brasil.

Feito. Nós candidatos saímos de uma cidade pequena, que é nossa trajetória solitária no campo psi, para ingressar numa instituição que parte da regionalidade para alcançar o mundo através da IPA:

 

“O maior trem do mundo

Leva a minha terra

Para a Alemanha

Para o Canadá

Leva a minha terra

Para o Japão..”

 

“...o maior trem do mundo

Transporta a coisa mínima do mundo

Meu coração Itabirano...”

 

Carlos Drummond de Andrade

“O Maior Trem do Mundo” (Fragmentos)

 

Interessante. Estátuas de personalidades (Otto Lara Resende, Chacrinha, Zozimo Barroso do Amaral, Tom Jobim, Dorival Caymmi, Carlos Drummond de Andrade, Ibrahim Sued e Clarice Lispector) que nos remetem ao popular, ao erudito, ao superficial, ao elitista, ao datado, ao eterno. Todas expostas e coabitando o cotidiano intenso do Rio de Janeiro. Tal qual os candidatos absortos na rotina não menos intensa da formação psicanalítica.  

Bancamos?

Para evitar o entendimento do “bancar” como “fazer-se de” (exemplo: “bancar o esperto”) vimos a necessidade de saber como tudo começou na primeira mesa do evento ouvindo a experiência daqueles que fizeram parte do inicio da ABC. Foi possível identificar o que repetimos e o que transformamos hoje, questionamentos que se apresentam como constantes e aqueles que possuem o signo do tempo que vivemos.

Ao lançarmos luz para o “bancar” como “sustentar”, abrimos o sábado com a mesa sobre nossas representações de candidatos nos três níveis: nacional, sul americano e mundial. Como o trem de Drummond que parte da interiorana Itabira, vimos o quanto seguimos como desbravadores de novas terras psicanalíticas a partir de nossa experiência local. Bancamos nesses níveis de representação a oportunidade de vivenciar a vida societária proposta pela IPA.

Por ser uma grande reunião de sociedades, a IPA se alimenta de intercâmbios e as representações de candidatos são os espaços mais propensos para criar uma atmosfera favorável para trocas futuras, que permitirão uma transmissão da psicanálise sempre revigoradora, criativa e principalmente subversiva, como nos mostrou Freud.

Após nos localizarmos através dos representantes ABC, IPSO e OCAL o clima ficou favorável para a vivência: “O que é bancar a sua formação?”. Divididos em grupos confeccionamos cartazes utilizando canetas coloridas, tintas e recortes. O resultado foi surpreendente.

 

A liberdade de criar em grupo possibilitou que vários elementos envolvidos na formação surgissem sem o crivo por vezes defensivo da fala, alcançando assim um nível de aprofundamento que talvez não alcançássemos numa discussão tradicional.

Na mesa seguinte, ouvimos os relatos pessoais de quatro candidatos, um de cada sociedade envolvida no Regional Sudeste II: SPRJ, SBPRJ, APERJ e SBPMG. A riqueza dessa mesa se fez pela possibilidade de observar e refletir de como a escolha pela formação psicanalítica afeta todo o processo da vida pessoal do candidato: família, vida social, deslocamentos, estudo, dinheiro, companheiras, companheiros etc. Toda essa intensidade num momento da vida em que, independente da idade, todos já construíram um percurso profissional e pessoal.

Faltava destacar como o candidato banca os quatro eixos da formação. Para isso um trabalho sobre cada eixo foi apresentado (analise pessoal, supervisão, estudos e implicação do candidato na formação analítica). O que poderia parecer um debate óbvio, pois o que os candidatos com mais freqüência discutem nos encontros são os quatro eixos, principalmente o quarto que diz respeito ao envolvimento participativo do candidato na formação, não se confirmou. Os trabalhos sobre o quarto eixo mostraram o quanto o crescimento das representações tem favorecido um avanço considerável no aprofundamento das reflexões.

E daqui pra frente? Essa reflexão fechou o evento num local de perspectiva desbravadora, oceânica: a praia do Leme. Aqui os candidatos puderam expor o quanto o encontro favoreceu pensar o lugar de cada um dentro da própria formação e, se ele abriu caminhos para futuras transformações e despertou inquietações estimulantes.

Nesse relato, foi destacado um entendimento para ‘bancar” que merece destaque. Ele se refere ao jogo de apostas. Em sua obra “Orientações para uma psicanálise contemporânea”, Andre Green expõe que o analista deve alterar o enquadre para determinados pacientes para aumentar a margem de manobras do terapeuta. Isso pode implicar uma postura “saio ou dobro”, manter a situação analítica ou rearranjá-la para acessar pacientes com dificuldades de trabalhar dentro do enquadre analítico clássico. Penso que, muitas vezes, o candidato, diante das dificuldades da formação, tem de bancar transformações na condução de sua postura na formação.

 

São momentos muito difíceis e que, por vezes, exigem que este interfira em um ou mais eixos da formação para seguir seu percurso. Nesse momento, a horizontalidade oferecida pelo quarto eixo e suas representações de candidatos pode ser fundamental para a sua não deserção.

Celebramos o final do evento nos mantendo na praia para uma apresentação de samba, ritmo tão carioca que, assim como a psicanálise, se reinventa para se manter vivo.

Carlos Eduardo Teixeira de Souza
Conselheiro ABC | Região Sudeste